Parafraseando
Outubro 6, 2009
Depois que li a frase “o ócio é muito exlusivo” pensei que não teria problema relatar um pouco do meu ócio. Perdi a vergonha e lá vai.
É parte do ócio prestar atenção aos detalhes da vida alheia, certo?
Como, por exemplo, reparar na rotina do seu vizinho pelos cheiros que entram na janela. De estar aqui sentada todas as noites com a janela aberta, eu sei que a mulher costuma fazer ou requentar a janta às 20:30. Sei que assim que termina o JN, antes da novela (isto, eu confesso, não sei pela janela, é estatística e relacionada à Globo), ele vai tomar banho, pois então eu sinto o cheiro de Palmolive, de shampoo barato e, com muita sorte, nostalgicamente, alguém usa creme rinse Kolene. Aqueles perfumes tão característicos empreguinam mais e mais com o bafo quente, inevitavelmente quente, do pós banho e sobem um, dois, até três andares para chegarem aqui.
Logo depois da janta eu sei que vem o cigarro na janela. Aquele depois da comida, que parece fazer tudo entrar no lugar. Os pensamentos do dia, os músculos, o sangue… A fumaça me deixa louca de vontade de acender um também e fazer companhia. É uma forma exclusiva de se ter companhia.
Depois que a noite se aquieta, o único cheiro é lá pelas tantas da madrugada. O ipê roxo que solta um aroma indescritível. Não é tão bom quanto “indescritível” pode significar, apenas é dificil descrever.
Às Vezes, realmente me sinto mal por, em minha ociosidade, reparar em uma rotina que não é minha . Mas é impossivel ignorar que, Às Vezes, eu prefiro esse meu ócio exclusivo, à minha vida compartilhada.